terça-feira, 27 de dezembro de 2011


Eu, hoje, acordei mais cedo/e, azul, tive uma idéia clara./Só existe um segredo. Tudo está na cara. (Paulo Leminski )

começo

No fim do ano, o momento é propício, a melancolia e fácil, a comoção é geral. Os clichês dizem do tempo de rever, refletir, prometer, melhorar, ao menos as intenções. Então vamos a eles. Da rapidez com que o ano passou à vontade de ter feito algo diferente alguma vez, e a impossibilidade de voltar atrás. Fecham-se ciclos, de verdade, para todos e para mim, vários e significativos. A esperança é igual também: novos começos virão. A nossa, a minha tarefa é esperança e empenho, o resto é presente e futuro. A surpresa é que a maturidade não vem com os aniversários e cada dia a novidade daquilo que me desconheço me aflige e me alegra na mesma proporção em que busco o equilíbrio na ponta dos dedos. Como diz a música “frágil é se aproximar, mas eu chego.” Mesmo que não seja junto com 2012, que seja enquanto, que seja no melhor ponto, que seja com paz e amor para você e eu.
Feliz ano novo desde já!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

preciosidade

Nossa senhora da flor roxa
rosai por nós
assim na vida como no chão
a primavera de cada ano
nos dai hoje
encantai nosso jardim
assim como encantamos
o do nosso vizinho
e não nos deixei cair em tentação
de esquecer tuas flores.

Alice Ruiz (daqui)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Figuras de Linguagem

Estou anacoluto:
a falta de nexo
de sentido
ou sintático.
Pensamento
Interrompido
Desordenado

Delírio
É fim
e começo?
Mesmo sem
significado
sou compreensível.
Paradoxo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Agramatical
ícones, índices e símbolos

Há fortes indícios de que seja a hora de partir, em outra direção, sair à rua, ver e ouvir outras coisas. A sociedade nos impõe, pela cultura de massa, os padrões ideais de atitudes, beleza, sentimentos, moralidade, ética, amor e não questionamos. Consumimos, até não poder, até sermos consumidos pelas frustrações inevitáveis, de não alcançar, não corresponder às expectativas de nós mesmos mas, que não nos revela, não nos contempla, não nos acolhe imperfeitos. Somos levados a crê nos ícones mais irracionais, mais pobres (até de espírito) e nos cobramos valores e posses; vazios, muitas vezes, de sentidos. Por que não ouvir a verdade e aceitar placidamente as limitações? A existência nos punge e transcende nosso entendimento imaturo sobre a própria vida, o desejo, as coisas irreparáveis, nossa fragilidade diante desse imponente momento, Agora. Buscar o sublime além dos seus símbolos, exige romper com toda forma de aprisionamento e ignorância, do olhar ao sentir. Iluminar todas as formas de compreensão e praticar a amabilidade.


Apontamentos sobre aula de Texto em 22 de dez. 2011.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A (in) experiência de viver na pós-modernidade

Assistimos à dissolução dos discursos homogeneizantes e totalizantes da ciência e da cultura. Não existe narração ou gênero do discurso capaz de dar um traçado único, um horizonte de sentido unitário da experiência da vida, da cultura, da ciência ou da subjetividade. Há histórias, no plural; o mundo tornou-se intensamente complexo e as respostas não são diretas nem estáveis. Mesmo que não possamos olhar de um curso único para a história, os projetos humanos têm um assentamento que já permite abrir o presente para a construção de futuros possíveis. Tornar-se um ser humano consiste em participar de processos sociais compartilhados, nos quais emergem significados, sentidos, coordenações e conflitos.A complexidade dos problemas desarticula-se e, precisamente por essa razão, torna-se necessária uma reordenação intelectual que nos habilite a pensar a complexidade.
Dora Fried Schnitman. Introdução: ciência, cultura e subjetividade. In: Dora FriedSchnitman (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade, p. 17 (com adaptações). Aqui
PS: Acho bonito a capacidade humana de organizar e expressar o pensamento (inteligente) pela palavra, é quase ritmo, é quase lirismo, é quase música :)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

acerto

"convoco o amor para as soluções. por pura inocência ou por uma crença silenciosa de quem prefere - seja escolha, obstinação ou ato de coragem - acreditar que, de fato, há no amor uma coerência ímpar capaz de trazer à tona o que pode ser resposta. no que diz respeito a mim, além de intolerante e, por vezes, egoísta, também sou toda coração. e nesse ponto, não vale acusar nenhum erro.

Camila Pereira M. (aqui)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Crônica da rua nove

Morar perto do bar da esquina e de parada de ônibus, tem suas vantagens, frequentemente há pessoas protagonizando situações inusitadas altas horas. De bêbados filosofando pra rua toda ouvir a brigas memoráveis de namorados, amantes, amigos*. É sempre interessante observar nosso comportamento. Humano, demasiado humano. Dessa vez deu-se o segundo caso.
Era quase meia noite, acordo ouvindo vozes alteradas, carro acelera duma vez, freia bruscamente. Ela ou ele diz: “me dê a chave”. Ele berra: “e não apareça mais! Fica ai, então!” Ela bate a porta do carro e brada: “pode deixar. Vá com Deus!” O carro novamente sai cantando pneu. Não resisto, levanto e vou à janela. Vejo-a. Caminha apressada, olhando o carro sumir ao longe. Caminha pisando firme, certamente com um pouco de receio, pois vindo do lado contrário, uma figura aparentemente masculina, fumando, aproxima-se (uma mulher sozinha, uma rua escura tarde da noite e um estranho aproximando, parece filme de suspense). Permaneci olhando, temi por ela, e me preparei pra soltar um grito e assustar o bandido, caso eu estivesse num roteiro de filme; mas era só minha imaginação fértil, e os dois cruzaram-se e seguiram seus caminhos indiferentes.
Continuei ali, até ela dobrar a esquina (não a do bar. Moro numa travessa). Dobrou a esquina, sumiu e me deixou pensando sobre passos firmes e a coragem que o orgulho dá, repentinamente, quando já não há nada que possa ser dito ou feito. E fiquei querendo, ser corajosa também. E seguir em frente, sem olhar pra trás, enfrentar os medos, dobrar esquinas, com uma dor, talvez; mas destemida, levando meu amor-próprio.

*(até hoje não houve nenhuma situação mais violenta que precisasse de intervenção policial, ou eu não acordei :)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Aula nº 1

No início da oração é proibido,
não faz sentido, dizer:
-Te amo (heresia morfológica)
Esse pronome não inicia a frase.
Pronuncio teu nome, então,
junto ao meu:
-Eu te amo (poesia antológica)
No fim, coração aprende.
Declara-se,
culto.
Mas, continua equivocado,
Falando certo.
Sentindo errado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

saudações

Bom dia,

Céu, sol (tímido ainda). Boa sensação, a de amanhecer junto com o mundo, devagarinho despertar o corpo e a mente pras atividades, mesmo corriqueiras de passar o café e ligar o rádio pra harmonizar as sinfonias que adormecem dentro da gente; as quais propagamos no gesto, na voz, no nosso jeito de estar, aqui.

Boa tarde pra você.

sábado, 26 de novembro de 2011

Para ti
(...)
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo

Mia Couto

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Linhagem

Agora
Chega a hora, o instante. Imaginar já não basta. Aprender também, mas fazer da palavra o avesso do verso, da prosa, o existir primeiro do que se viu e sentiu. Encantar o cotidiano com as letras e os sons que vibram junto, que pulsam a cada batida no peito, a cada sopro de ar que expiramos e inspiramos.


(eu aqui, em outro alinhamento)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

para hoje (e amanhãs)

Chegando. Encaro de frente; enfrento a fraqueza que vem do desejo; essa humanidade que anseia sempre o que estar por vir, o que não é iminente, tangível. Toco essa incompletude pela palavra e esvazio essa falta quando assumo que só sei ser, eu , intensamente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

contido

a dor ar
a dor
ar

até parece que a gente gosta de lembrar daquilo tão dolorido, mesmo que no passado já tenho sido bem colorido. até parece que a gente manda, a mente muda, desanuvia. até parece que quem vê crê, que a gente acredita que vai passar; vai passar, rapidinho. mas enquanto tudo isso insiste ainda, dou um pequeno passo, faço um verso do que resta e o resto se esvairá, devagar na poesia e na prosa de cada dia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

às vezes

"Sometimes it lasts in love/ But sometimes it hurts instead" Adele

To vendo o arquivo desse blog, decrescendo em números de postagens a cada ano. Hora de parar? De escrever não, claro. [Que essa certeza esse espaço me deu. Sou feliz escrevendo, despretenciosamente escrevendo. Talvez bem mais despreocupadamente no início, quem sabe por isso os silêncios maiores agora.] Mas de tomar novos rumos, ocupar outros espaços, mudar o foco. É difícil resistir ao desejo de que as coisas dêem muito certo, sempre ou continuem nos agradando. É difícil entender que as vezes, as coisas, as pessoas, mudam, escolhem, desistem, insistem, desbotam, retornam, distanciam ou aproximam-se (de outras coisas ou pessoas ou idéias). Mas nada é tão pessoal assim, nem eu mesma sou a mesma de ontem; há um fluxo, há um movimento que reconfigura todas as circunstâncias, todos os sentimentos, todos os pensamentos, indefinidamente; eu o sigo. E agora começo, devagar a aceitar os rumos que me cabem, sem no entanto isso significar resignação, não se explica. Só entendi, que há mais gente com as mesmas dúvidas, os mesmos medos, os mesmos desejos, os mesmos sonhos e é bonito se enxergar no outro. Continuo sem saber se é hora do ponto final ou reticências, pausas, sumiços, presença. Mas seja qual for a decisão, será o que eu poderei fazer de melhor, viver de agora, esse instante.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

espelho

Você é capaz de guardar um segredo?

Estou falando de algo que é só meu, que ninguém faz idéia, que o mundo desconhece, que eu trago do berço, do antes, do primeiro piscar de olhos. Não é um lugar, nem uma sentença. Também não é uma crença, tampouco uma lenda! Não é com alguém, é comigo. É inato, fortuito, inviolável. Está oculto, encoberto, imperceptível. Não, eu não estou doente…nem louca! O meu segredo é sobre mim. Quantas coisas sobre você só você sabe?

Existe algo em mim que é sem-par, que me torna dessemelhante, que me desarvora. Minha verdade clandestina é o que me faz ser caminhante, que me dá condições para supor os porquês da minha existência, que me propicia frentear a vida. O meu mistério me pertence. E você, tem um mistério que é só seu, que te dá vantagens, que te auxilia?
Se você me der a sua palavra, eu lhe concedo um voto de confiança!
E então, posso lhe contar?

Repare em mim! Ora, vamos, com mais tento, com mais ternura, com mais tato! Está vendo? Experimente de novo! Sem urgência, sem ânsia, sem alvoroço. Para saber de mim, você vai ter que desperdiçar o seu tempo! Você teria disposição suficiente para sair de si e vir até aqui me conhecer com propriedade?
Chegue mais perto, pode se aproximar! Não é fabuloso?

Eu escolhi você, dentre todas as pessoas do mundo, para confidenciar o meu segredo. Esse que é parte de mim, que me deforma e me diferencia: o meu terceiro olho! Esse globo camuflado bem no meio da testa, essa coisa benta e monstruosa, maldita e dadivosa! Um sexto sentido que não se adequa, que não se encaixa.

Estou sempre na divisa entre dois mundos: o visível e o invisível! Meu terceiro olho me permite contato com uma série de coisas que, cientificamente, simplesmente não existem! Então, eu nunca sei onde estou: mais pra lá ou mais pra cá? Talvez por isso eu seja tão inquieta. Andarilha, foragida, mutante.
Eu enxergo a vida em terceira dimensão!
Esse é o meu segredo…que agora é nosso!

E você? Seria capaz de me contar o seu?

Maíra Viana (descrevendo a inquietude dela e a minha, aqui)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

do amor

"Quando a gente ama, não há fim, não há mapa, não há tristeza sozinha, não há taxímetro estipulando preço. As paredes dão licença. As estátuas conspiram datas. As datas mudam de lugar. É uma corrida solta, dispersa, distraída como uma alegria nova".


Carpinejar, daqui

sábado, 29 de outubro de 2011

canto

"A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta/ Saudável, livre, o mundo diante de mim
A longa senda marrom em minha frente, conduzindo me para onde quer que
[eu escolha.
A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte " Walt Whitman

Para mim, que quase sempre escolho o conforto e a segurança daquilo que conheço e acomoda minhas incertezas. Para mim que sempre opto pela calmaria do cotidiano, pela tranquilidade da rotina. Surpresa. Entusiasmo. Receios também. Mas o espaço maior está reservado para a sensação de liberdade, que veio junto com a coragem de romper com os próprios medos. De não me deixar paralisar. Como li em algum lugar outro dia: "agir é arrancar da angústia sua certeza". Pensei, senti, escolhi o novo, decidi mudar. Que venha a saudade! Que venham os desafios, as surpresas! Sinto a alegria do que movimenta a vida, a mudança. Me emociono com o "você vai ser feliz" vinda dos amigos que compartilham a esperança na felicidade de quem a gente quer bem e retribuo porque é recíproco e verdadeiro. São coisas assim que levo e deixo nos tempos e lugares onde me encontro. Porque algumas coisas nunca mudam, e é preciso preservar aquilo que já construimos e valorizamos: amizades, afeto, histórias. Vou continuar escrevendo, buscando a inspiração inerente aos momentos e aos movimentos que a vida faz.**

**texto escrito sob a licença do afeto que está no exagero de contar sobre o que nos afeta, diretamente. :P
* canção da estrada aberta (poema na íntegra)

domingo, 23 de outubro de 2011

pra hoje

O amor vai te contar um segredo
Não precisa ter medo
Nem sair correndo
O amor nasce pequeno
Cresce, fica estupendo
Às vezes o amor está ali
Você nem tá sabendo
O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor...
É mãe, é filho, é amigo,
Às vezes num canto esquecido existe amor
Antigo, antigo
O amor que cuida, parte e assusta
Que erra e pede desculpas
Às vezes o amor quer ferir
E se cura doendo
O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor...
É pausa, silêncio, refrão
E explode nessa canção
O amor vai te contar
Um segredo, fica atento, repara bem
Que o meu amor é todo seu
Antigo


♫ Paulinho Moska

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

correspondência

Estive lendo algumas coisas bonitas nesse web mundo,cheio de tudo, cheio de nós mesmos, em versos, em imagens, em trechos, nos recortes feitos pelos outros que também se reconheceram em algo e por isso também quiseram recolher para si parte disso. Esse ciclo de re-conhecimento, que não se encerra e re-começa, talvez, nesse ponto em que também eu - outro quero, imprimir uma idéia, uma sensação, uma coisa que possivelmente nem tenha nome ainda, mas existe, existiu, fez sentido para mim - alguém. Embora esse algo seja indizível no momento, lamento.

Cito, então:
"Fere de leve a frase... E esquece...
Nada convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita." (
Mario Quintana)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

milagre

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…

Miguel Torga
(Foto-arquivo pessoal: Praia Litorânea -São Luiz- MA)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

para ouvir ou dançar

Por enquanto, ouvindo 21 de Adele. Gosto dessa melancolia mansa, que escorre pela melodia num tom solitário da consciência de que estamos sós com nossos sentimentos e não cabe imposição, devemos viver as escolhas.
Gosto do lirismo suave com que cada nota denota uma tristeza que se encerra no momento em que é dito um verso da música, inspirando a vida a fluir para momentos alegres e a nos entregarmos a essa ciranda de ritmos variados; onde ora dançamos, ora choramos. Gosto do modo como somos afetados pelas emoções de um artista, de um músico ou de um poeta, nas quais reconhecemos a nossa própria vibração, os sons que produzimos com o coração e com a mente, quando ao invés de os fazermos ecoarem mundo a fora, guardamos dentro do silêncio e os encontramos na voz alheia. Que bonito tocar ou ser tocado pela arte, delicadamente.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

à vida, ávida

eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida. Tal avidez tem algo de plebeu, não acha? A aristocracia não se concebe sem um pouco de distância em relação a si mesma e à própria vida. Morre-se se for preciso, antes quebrar que dobrar. Mas, eu, eu me dobro, porque continuo a me amar.

Albert Camus, daqui

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Quando a dor pode ser bonita também; pela música, pela arte.
É assim:
Adele - Someone Like You

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Crônica de setembro em Brasília
Eram 13 h 40 e eu esperava embaixo de uma barraca de lanchonete de rua, a imobiliária abrir na volta do horário do almoço. O céu cinza e empoeirado, no auge desse período seco, tornava difícil respirar, devia fazer uns 32 graus, não sei, na periferia não se veem aqueles postes eletrônicos que indicam temperatura, hora e data, só na capital, assim como outros serviços.
Pois bem, o calor estava mesmo insuportável e eu olhava os carros passando e poluindo o ar; o sol quase derretendo os prédios e asfalto; tive a impressão de que eu não sou tão urbana quanto penso e desejei viver um dia numa casinha no meio do mato, rodeada de árvores, perto de um laguinho, pensei no lugar que nasci. Lagoinha. Hum a minha rede na varanda e as palmeiras no horizonte, verdinhas, aquele vento...
Já estava quase sonhando, um casal atravessa a faixa de pedestres de mãos dadas, sol a pino, ainda; e era como se estivessem atravessando um caminho de relva em plenas oito horas da manhã. Tão frescos, reluziam a uma felicidade apaixonada sabe? Aquela de quando só se enxerga a si e aquele a quem se ama; tudo vibra, tudo emana alegria, tudo parece bonito. Nem parecia que existiam carros, motoristas grosseiros olhando a bunda da garota enquanto passavam, nem poluição, nem impaciência.
Parecia que só havia os dois e aquilo que sentiam e era bom o suficiente e para sempre. Voltaram, com o refrigerante que haviam ido comprar no mercadinho, igualmente inspiradores e amáveis. E eu voltei à minha pequena significância, se eles na sua simplicidade tornam o mundo indefectível e terno, em meio ao caos do cotidiano; quem sou eu para apontar algum defeito nessa vida?? Suspirei. Relógio desacelerado momentaneamente; retornei ao ritmo indiferente das coisas e fui pagar meu aluguel.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

por escrito

Algumas pessoas derramam lágrimas, eu espalho letras numa página branca. E às vezes é como um choro. Absurdamente nem existem motivos, nem sequer a página branca literalmente. É em vão. Significo cada palavra, como se fosse cada um dos silêncios indizíveis.
E depois de uns dois parágrafos, esses soluços mais espaçados, dão conta de certo alívio que é transmitir o peso do sentir para o sentido de cada frase; uma oração. Sinto-me absolvida pelas intenções nunca claras, nunca óbvias, nem para mim. Ladainha finda, faço coro a essa prece:

terça-feira, 6 de setembro de 2011

propriamente

Não estou escrevendo. Descrevo; descrente da inspiração sobre o dia em que não me importe quando emana só o que não compreendo, ou não quero. Me prendo a não aceitação dessas escolhas, alheias às minhas. “Minha liberdade carrega um peso”, diz Camila. Concordo e quero também, crer na capacidade de libertar, a você, a mim; das razões, dos protocolos, do esperado. Compreender a limitação implícita no ato de afetar alguém. Há as intenções e as interpretações carregadas de tudo aquilo que vem antes e nos molda. “Meu tempo é quando” já disse Vinícius. Vamos ultrapassar a barreira das horas e viver agora, só daquilo que nos cintile.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

identidade

Razões irracionais

Escrevo poesia, simplesmente, porque não caibo em mim. Porque, embora saiba ser o ser humano inatingível em sua essência, uma teimosia atípica não me permite desistir de esticar os braços e rogar às pontas dos dedos que roçem essa essência. Escrevo porque sinto o universo em carne viva. Nuances cambiantes invadem-me por todos os poros d’alma. Múltiplas sensações quadruplicadas de prazer e dor arrebatam-me. Minha sensibilidade ultrapassa os limites do tolerável. E sonho. Degraçadamente sonho.
Escrevo porque sou insaciável. Completamente insaciável. A profusão de possibilidades latentes que pulsam frenéticas em volta me fazem assim. Almejo a perfeição descaradamente, enquanto quase todos a espreitam invejosos e resignam-se previamente pela certeza da impotência. Escrevo porque calo. E assim processo as impressões do exterior sob os afagos da solidão enclausurada. Escrevo porque sou só. Porque sou incompreensível e não compreendo. Como todos o são e o fazem. Escrevo porque amo. E meu amor é grande e maior. Sempre maior.

Escrevo. E isso não basta. Diz-me o que basta e serei paz.
Escrevo.
Porque sou pequena. E não caibo em mim.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

por email, não fim

Do desejo

Primeiro o sentimento, depois o significado.
O desejo diz além do sentido, ou melhor,
não diz, porque trata do que é intangível.
E não há tradução, nem nomes, é saber ou não saber.
Sentir ou não sentir. Tocar ou não tocar.
Sem retoques, sem receios, sem critérios.
Desejar traz no cerne a incerteza da
satisfação, mas não a certeza do improvável
e brinca com as possibilidades como se brinca
com as palavras:
significa
mente
significativamente
cativa
cativa mente
Assim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pequeno tratado pessoal das coisas essenciais e outras prescindíveis

O melhor momento, agora. Faço esse registro, brado a descoberta. Festejo essa hora, a minha. Enxergo a verdade. Concordo com o clichê, a felicidade mora dentro da gente. Estive buscando ao lado, todos erramos. Me perdoo. Mas retorno sempre ao ponto de onde posso partir cheia de coragem. E corro, voo, caio, equilibro-me novamente buscando chegar mais próxima de ser. Conhecer os limites, as falhas desse lugar, esse abrigo.
Reparo quando possível. Desacredito quando dizem de planos que não são meus, mesmo que eu não tenha algum. Duvido dos adjetivos que não ressoam n’alma, que não inspiram afeto. Revelo, tímida, revelo o que sou, o que penso, o que sinto. Desagrado. Agrado-me desse atrevimento sutil de me orgulhar dos meus dons, a sensibilidade, a inteligência, a esperança, o sentimento da poesia, mesmo sem ser poeta. Dispenso quem não compartilha com ternura o meu jeito de viver, quem aponta cruel, quem desdenha das coisas que trago no coração. Porque sei quais tesouros não se desgastam. Distancio e aproximo conforme este tratado em construção, das coisas que acredito, por enquanto. Não é arrogância, é escolha. Procuro a leveza, a alegria. Essas coisas que significam, transformam; pacificam-me.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

sabedoria

"Dê-me, Senhor,
agudeza para entender,
capacidade para reter,
método e faculdade para aprender,
sutileza para interpretar,
graça e abundância para falar.
Dê-me, Senhor,
acerto ao começar,
direção ao progredir e
perfeição ao concluir."

São Tomás de Aquino

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

intertexto

"O senhor sabe o que o silêncio é?
É a gente mesmo, demais". Guimarães Rosa

Entre textos e contextos, visitas à ilha, voltas ao continente, revoltas impertinentes, internas; compartilho a poesia vista, que também me toca nesse instante, num outro estado, que seja; este mais próximo mesmo do sossego ruidoso que me embala nesses tempos estranhos; em que são raras e difíceis colocar em linhas as palavras, por aqui.
Sinto, graças a Deus, feito melodia, a verdade na sabedoria do poeta, a gente sendo demais pelo silêncio. Sei que esse calar é também verdade e intensidade de vida; urgente, pulsante, que não sabe nem como, nem quando, dizer.
Não digo. Não sei... Aguardo outro pulsar, outro fluxo onde seja a vez da voz, da fala, do canto, do encanto, da escrita que queira e possa ser partilhada. Agora, não se exprime. Silencio.

sábado, 23 de julho de 2011

roteiro

"Um lugar pro coração pousar
Um endereço que freqüente sem morar..."
Marisa

Eu fui lá e voltei, lá é dessas viagens de ida e volta, que repetimos, que não tem tamanho, porque são medidas por afeto às pessoas, aos lugares, às histórias que lá vivemos; são imensuráveis, são inesquecíveis, porque são a matéria da qual fomos sendo feitos, com toda a dor e delícia dessa sorte de cada um. E de lá, não se volta vazio, volta-se cheio de saudade, de sensações, de idéias, de reflexões.

Também vim assim, afim de lapidar cada sentimento na ponta dos dedos e deixar nesse espaço muito daquilo que me emociona, impulsiona pela verdade, pela importância; a minha. Por isso nem sempre poderá ser compreensível ou bonito, mas valerá pela tentativa, já muito válida, de repensar e dispensar tudo aquilo que não agrega algo bom.

Certa vez, li que escrever era como catar feijão, ou algo assim, não lembro quem disse; que vamos escolhendo os grãos bons daqueles que não servem. E é assim, escolhendo também pelo olhar, pela intensidade daquilo que sensibiliza, que comove, cada motivo, cada palavra que compõe os trechos, os textos, essas trilhas que vou deixando e por onde me encontro depois, percebendo que caminhos tomei e quais deveria ter escolhido. Mesmo assim não deixando espaço pro arrependimento, porque não sei, não sabemos; a direção e os rumos dependem também do acaso, do destino, de toda coisa que implique o nosso limite em não decidir, em ir apenas, corajosamente em busca do sonho, do desejo, daquilo que nos mova, nos leve adiante. Eu já dei o primeiro passo... E salve Leminski:

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

sábado, 9 de julho de 2011

cadência

Tome seu chá devagarinho e com reverência,
como se fosse o eixo em torno do qual gira a Terra
– devagarinho, ordenadamente, sem correria rumo ao futuro.
Viva o momento real.
Somente este momento é a vida.


Bom dia, São Luis!








segunda-feira, 4 de julho de 2011

pra quem escreve, pra quem se inscreve

Para quem, feito eu, anda encantado com a escrita, pode participar, mostrando seu talento ou seu amor à essa forma de expressão e arte, ou se não; visitar o site, ler os textos de apoio como o que eu li (Pra que serve a literatura? e muitos outros) e se deliciar com tudo que há de bom lá. Se inspirar e escrever..

Ah, as inscrições vão até 15-07!
Concurso Cultural :Ler e Escrever é Preciso do Instituto Ecofuturo
---> http://www.ecofuturo.org.br/concursocultural


Nos vemos na premiação, digo publicação !!! rssr
PS: Podem participar alunos de Ensino Fundamental a Médio, EJA, Professores, Profissionais de Biblioteca e Educadores Sociais.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

redimensionar

Quando tudo está
por um triz.
Qualquer coisa
é a última gota
d’ água.
Rio
Sorrio
Quero nadar contra a maré.
Amar é...
Sonhar e encontrar,
o mar.

terça-feira, 21 de junho de 2011

trecho

"Sou o espaço onde estou. " Noël Arnaud

Roubaram minha inspiração. Levaram os silêncios que eu guardava dentro, aqui. Fiquei perdida dentro de pensamentos ruidosos, era difícil distinguir o que me pertencia como peso e prenda e prumo, questionei mesmo aquilo que me constitue.
Agora, depois de um tempo, volto a encontrar sentidos e coisas pra guardar como valiosas. Reaprendi a ler as histórias que me descrevem. Olhando e ouvindo aqueles rostos comuns na fila do banco ao meu lado, na parada de ônibus, o estranho mais próximo, de quem não suspeitamos que venha qualquer semelhança, humanidade.

Hoje precisamente, ao ouvir umas dessas histórias que não acreditaríamos se não nos contasse o próprio protagonista, o próprio ator; pensei em quais histórias dessas ou de outras eu existo, tão tristes, tão bonitas, tão heróicas, tão comoventes quanto aquela. Não sei dizer a sensação de compaixão que é se perceber gente, falível, forte, bonito, feio, triste, feliz, vivo.
Imensamente viva. E isso não implica que concluí que o importante é ter algo a contar, agora ou um dia. Eu só estou, talvez, encontrando um modo de ver, e sentir, que era meu, cheio dessas coisas intangíveis que escapam ao toque das mãos, dessas coisas suavemente densas, carregadas da poesia que minha alma anseia e busca, imperfeitamente.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sintomas
Sinto
Sinto mais

Dia de check-up, andar de uma especialidade a outra, embaçar a vista pra ver de perto as coisas, examinar as entrelinhas, avaliar o quadro geral, andar na rua pra lá e pra cá de manhã e a tarde em busca de estar, bem. O diagnóstico veio antes dos resultados clínicos, o coração se fechou de um lado, pra caber mais. Quer caber o amor e o mundo e, vai. Descobri que a beleza e o encanto da vida andam pela mesma calçada que nossas mazelas mais tristes; a última meio cabisbaixa durante o entardecer. A gente caminha ao lado e tenta desviar os sentidos nessas horas, mas sente. E só. O remédio é acolher nossa solidão inerente e acomodar os afetos restantes, tudo junto, na medida, cuidando da alma e do corpo, literalmente.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

enquanto silêncio

1(...)
perdoai, amigos, meu linguajar de símbolos tão velados
(...)
e não há tempo para temer
e não há tempo para chorar:
a Valsa
não tem perdões, obriga-nos a valseá-la
a Valsa
não sabe nomes, envolve-nos nos braços
a Valsa
ela mesma não se chama Valsa —
perdoai, amigos, falar-vos nesta linguagem
há algo em mim que quer brotar com força:
talvez um simples poema
talvez (perdoai) apenas
esta vontade, imensa, de falar.


Antonio Brasileiro enfeitando as margens de Suave Coisa ( blog tão lindo quanto a poesia)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

enquanto calo


É preciso falar dos amigos
É preciso falar de nós dois
É preciso falar de estar vivo
E do que nos espera depois
...

É preciso brindar o destino
É preciso gritar começou
Se jogar nessa dança na vida
Sem medo do escuro

Impossível não falar de amor
É preciso falar
...

domingo, 29 de maio de 2011

vertigem

O mundo saiu dos eixos, me desequilibrei em cima desse fio tênue que nos ligava, e onde eu andava sem medos, sem receios. Percebi que pisava em lugares imaginários mesmo enviando apenas pensamentos bons a respeito desse caminho. Não foi o bastante.
Quando abri os olhos vi, que muitos se acovardaram temerosos da liberdade de escolher o risco que é andar ao encontro do inesperado, do afeto. Eu quis mesmo me desequilibrar, perder os sentidos, viver esse agora sem ressalvas, mas parece que foi muito, o corpo não suporta certos deslimites e fiquei zonza, tonta de realidade.
Felizmente eu sei que posso me deixar cair, há uma rede tecida por várias outras linhas que se ligam a mim, amortecem qualquer queda. Porque há sempre o cuidado recíproco, o amor primeiro, entre nós.
Tento acabar com essa vertigem, fazendo minha própria comida, me alimentando de delicadezas, de outros sonhos. E entre um Dramin e outro, ouço Marisa Monte para reter muito mais poesia enquanto a sonolência tenta me vencer. Mas estou certa que estou acordando pras pequenas felicidades, se for preciso torno-me equilibrista ou faço laços com essas linhas tortas por onde me escrevo.

sábado, 21 de maio de 2011

Meu amor não sabe

Meu amor não sabe
que ele não cabe
no quotidiano
No preto no branco
do meu dia a dia
Quer é colher flores
perfumar os quartos
recitar poesia
escrever nos muros
Meu amor é burro
E não se resigna
ao papel reservado
neste acordo tácito
que ninguém assina


Mariana Matias, poeta brasiliense in seção Tantas Palavras do Correio Brasiliense

segunda-feira, 16 de maio de 2011

rumar

Não consigo perceber,
mas a razão diz,
há um bom sentido
em não se entender

Ó vida! Que queres dizer-me
com essa incerteza do humor,
desamor?
Sou feliz ou não sou?

O segredo é este?
Mergulhar na vontade,
estar mais certa que antes,
segurar fragilidades...será?
Pensar, sorrir, amar...

Ah! o mar...ainda bem,
sou capaz de mudar o prumo
noutro rumo,
de repente...

domingo, 15 de maio de 2011

Colorindo,
coralindo
cora...aqui.

terça-feira, 10 de maio de 2011



De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
[...]
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras de seu pó
.


Adélia Prado.

terça-feira, 3 de maio de 2011

alvorecer

A pergunta infantil desencadeia a dúvida:
Já é de dia ou é de noite??


Ando anoitecendo cedo
noturna para alguma alegria.
Mirando lua e estrelas,
buscando esclarecer
pra desanuviar.

Mas sou do signo da claridade,
regida por manhãs transparentes
e tardes ensolaradas.
Minha ternura nasce todo dia,
junto com o sol...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

À Ana Cecília

Bem vinda, menina Ana, mais uma, única entre nós. Amada Cecília, bem vinda. Tua chegada nos alegra, nos une. Não planejada, porque escolheste a doce surpresa de vir ao mundo por vontade de Deus. Que milagre! Te esperamos, emocionados desejando desde sempre e, foi assim que chegaste; saudável, depressa, cheia de graça e beleza para junto de tua família. Essa da qual faço parte, da qual você é hoje o motivo mais gracioso de festa, de esperança e felicidade.

Envio, de longe, todas as bençãos e me sinto feliz de saber que já estás cercada de amor...


Sua tia, Ana

quarta-feira, 27 de abril de 2011

PROCURA-SE

Procura-se um equilibrista
que saiba caminhar na linha
que divide a noite do dia
que saiba carregar nas mãos
um fino pote cheio de fantasia
que saiba construir ilhas de Poesia
na vida simples de todo dia.


Roseana Murray in Classificados Poéticos, 1984

imagem: arquivo pessoal, viagem MA, 01-2011

terça-feira, 26 de abril de 2011






"Repito: onde mora a delicadeza? " C. Pereira





imagem: viagem MA/jan 2011/minha casa

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Gêneros

Deve haver um lado bom em conhecer todo esse conto, entender o enredo. Acontece que nesse momento sou parcial e só vejo um lado dos fatos, o meu. Suspeito que perceber essa realidade que nos afronta insensivelmente seja questão de escolha.
Sempre lembro de Gullar e Leminski quando dizem dessa clareza que não escapa aos sentidos e que nos insulta, independente da nossa vontade de que as coisas fossem diferentes, tivessem outros significados, mas não tem. Tudo é tão claro que ofusca.
Penso nessa história fantasiosa que agora li, esta que fragiliza desde os primeiros desejos, que brinca de faz de conta mas depois desmente, quebra o encanto; mas penso também na possibilidade de reconstruir outros sentidos e sentimentos num possível romance que eu ainda venha a ler ou sonhar porque eu acredito no outro lado de tudo que ainda não vivi; existe muito mais além desse momento que agora me prende.
Espero a liberdade que começa com um olhar novo e curioso para o instante seguinte, com poesia.

domingo, 24 de abril de 2011


eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou

Eu escrevo e te conto o que eu vi
e me mostro de lá pra você
guarde um sonho bom pra mim



Rodrigo Amarante in trecho da música primeiro andar

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Oh! Mágico entardecer dos anos! (...) O coração não soma os meses com os meses; o coração goteja eternidade..."

Francisco Bendezú


Os minutos trazem um cansaço ansioso dos cronômetros diários, resistir é difícil, mesmo assim escolho lutar pelo ânimo, seguir munida de inspiração, mesmo aquela colhida nas coisas mais frágeis, nos sentimentos mais delicados. Talvez seja só uma vontade de viver de brisa, levemente, leve mente, leve...

terça-feira, 5 de abril de 2011

(...)
Eu venho dos anos, das eras, que longe se acham daqui,
Contigo cantei a canção no espaço maior,
Em forma de luzes de um mundo melhor
Mas foi necessário partir

Eu lembro da primeira vez que te vi,
Milênios de instantes de mim para ti,
Num só paralelo de imensidão
Estamos aqui.

Viemos de longe, do largo, do alto
Profundo
Cercado de inícios de todos os mundos
Sem poder parar.
(...)
Oliveira de Panelas, poeta e repentista

moradia

" (...) uma casa é infinita." Francisco Daniel*

A fala simples e quem sabe equivocadamente escolhida para expressar a indignação diante do fato de ver a própria casa ruir aos poucos, demonstra os deslimites da linguagem que mostra não apenas a objetividade da opinião, mas toda a emotividade que a fundamenta. Ao dizer da concepção de durabilidade de uma casa, o morador diz mais. Diz do significado poético e afetivo da palavra, diz além. Casa é para ele o lar, o lugar onde reside e residirá indefinidamente os seus, a família, as lembranças, as histórias, os afetos; essas coisas que se passam no lugar onde nascemos, crescemos e vivemos e não tem fim, não se encerram num imóvel, não se resumem a paredes, tetos e portas. É um mundo que se eterniza na mente e no coração de toda gente, que é a alma da toda casa. Essa moradia, infinita mesmo, dos nossos desejos, dos nossos sonhos de habitar a vida.


Eu compartilho desse significado ou talvez apenas o perceba erroneamente, mas carrego esse sentimento de infinitude, também.

*(morador de Trizidela do Vale -MA, sobre as casas entregues para as vitimas das enchentes no interior do estado do MA, e que já estavam apresentando risco aos moradores por causa das rachaduras. Assista aqui.)

quarta-feira, 30 de março de 2011

"Mariar"

Nem causador de tantas contribuições às discussões sociais ou aos fins dos preconceitos assim, quanto sugere o apresentador, nem tão dispensável quanto julgamos mesmo que sempre que podemos, demos uma espiadinha. O fato é que a vitória de Maria, me emocionou. Bial disse bem da surpresa. Ninguém ousaria pensar. Estamos mais acostumados a nossa vaidade, a subestimar, a rotular, a pré-conceituar, a desacreditar. Acho que porque o verbo"mariar" está imbuído de toda a essência feminina com os estigmas de sempre, incapacidade, indignidade, enfim subestimação. Para mim "mariar" é ser mulher, é ser humano antes disso. Não que "ela" agora seja um ícone feminista de superação, mas inspira a gente a pensar além do gênero, pensar com humanidade, e olhar com compaixão, paixão pra quem é igual a gente, humano, imperfeitamente humano, mas encantadoramente especial, homem ou mulher, feio ou bonito, inteligente ou nem tanto. Clichê, mas seria bom se fosse verdade, se acontecesse mais disso na vida real...

à propósito ou despropósito: "...seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, porque tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros de vários rebanhos- os rebanhos políticos, religiosos ou estéticos. Há no mundo ódio à exceção- e ser si mesmo é ser exceção. Ser exceção e defendê-la contra todos os assaltos da uniformização: isto me parece a grande coisa."


Monteiro Lobato


Bom, se eu "mariei", releva, que trata-se apenas de mais uma teoria pessoal totalmente insignificante pós final de BBB. E não to ganhando um real por isso que dirá uma milhão e meio! ha ha ha ;)

domingo, 27 de março de 2011

segredo

Conto apenas pra você, em silêncios, como gosto de me ver pelo seu olhar, que parece que não enxerga nada além do querer bem, da beleza que existe em gostar, da magia de esperar pela chegada do amor, pacientemente. Conta-me, mesmo através dos receios meus; toda a poesia que nos espera, mas se demorar busquemos, cúmplices, um jeito de ser feliz em par, um jeito de enfrentar os momentos diferentes de agora, que virão sem convite. Aceita, com leveza, encontrar o afeto que sempre esteve aqui que aceito o sentimento novo que trouxestes. Espero aprender contigo mais dos verbos que dizem da vida, da alegria e das sutilezas de amar.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Meu amor se alimenta

Meu amor se alimenta de esperas,
esta noite ela vem ou não?
O futuro não existe
e torna tudo possível.
Teus lábios na minha orelha
sussurram a página zero
de um livro a ser escrito.
Um livro de areia
à espera de uma onda
de um vendaval,
de um final.
Certamente imprevisível
no oráculo ilógico do acaso.
Mas o meu amor permanece
impassível, inventando passatempos
esperando latente
espumante alvorecer.

Leandro Wirz, trazendo pra gente a poesia sempre oportuna e inspiradora :)

sábado, 12 de março de 2011

sentido

Coragem!
É a palavra do dia,
é o grito de ordem.

Coragem!
Repito, tremo.

Coragem!
Repito, sigo.

mormaço

não é possível que com milhões de coisas acontecendo mundo a fora, boas, ruins. aqui dentro pareça suspenso, há um temor de paralisar após atravessar a porta, entrar no palco, perder a voz. há um receio de não ser visto, de que olhem através de mim. um vidro. um fragmento. um corte. sabendo que é sempre possível sarar e sorrir. prendo o olhar na toalha da mesa meio brega, meio vintage e não consigo ver poesia alguma ao redor do móvel. não me decido entre me estender além desse horizonte íntimo e permanecer dentro daqui.

quinta-feira, 10 de março de 2011

“sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
espécie de acessório ou sobressalente próprio,
arredores irregulares da minha emoção sincera,
sou eu aqui em mim, sou eu.
quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim."
Álvaro de Campos

in : http://pafurada.tumblr.com/post/114205896/sou-eu-eu-mesmo-tal-qual-resultei-de-tudo

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

lembrança


Imagem : arquivo pessoal :Divisa Maranhão -Tocantins- trecho da ponte da Ferrovia Norte-Sul sobre o rio Tocantins (Estreito - Maranhão)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

conviccção

É possível vencer o ceticismo milenar, ir contra a força do pensamento insistente, sempre incrédulo de que é agora, é isso, sou eu. Se fosse fácil não haveria livros contando tais segredos. Mas tenho motivos para mudar as perspectivas, acredito que tocarei o futuro com todos os presentes que sempre passaram diante dos olhos e do coração. Sim, vou pensar com toda a força dos bons sentimentos, a fé me habita. I believe. :)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

cotidiana
eventos cíclicos ocorrem alinhando incompreensivelmente poesia e embaraço sem tempo certo, sem porquês, apenas. Desconfio dos sinais dos tempos, mais há mais do que já foi dito, existe-se. Os enigmas se desmancham sem sentido, vez ou outra, e retornam para que novamente. É fase, é festa, é frio. Tudo se dissolve no primeiro raio de sol, acorda-se. É fato, entristecer tem sua beleza, alegrar-se tem sua melancolia. Agora não se nomeia ou teoriza, ando sonolenta para o trivial, mas só preciso olhar de novo para despertar pra simplicidade das coisas, essencial encantar-se diariamente, além.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

questões

Quais as palavras
cortantes
que não deixam
marcas?

Quais as dores
suportáveis
que não dão
trégua?

Quais as perguntas
absurdas
que fazem
sentido?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

resolução I

Dessa vez não levarei peso, dessa vez não me importo com nada que não seja não se importar, como quem anda com o zíper da bolsa quebrado, como quem anda por aí com chinelo de dedo, como quem não ouve e não vê nada que não seja bom humor, melodia. Só irei, serena e segura na direção do que não conheço, mas não temo, estarei munida da certeza de poder de novo, de tentar mais vezes e de no máximo se nada for como espero, contar com o tempo a favor de todos, do esquecer. Mas apenas se, porque estarei como quem sabe que acertará; como alguém que diz: eu já sabia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

passatempo

Observo a rua pouco movimentada à minha frente. Uma criança de aproximadamente um ano e meio brinca com outra que parece sua irmã, atravessa a rua e volta, dá um passo com mais esforço pra subir a calçada, mas independente. Aquele andar trôpego de bebê, mesmo assim decidido, aquela inocência sobre o mundo, e a ternura típica emanando na direção de quem o vê, ali entretido com o simples fato de andar de um lado a outro, só poesia e doçura.
Menos de dez minutos depois, inacreditavelmente, um senhor de cabelos completamente brancos, com o andar igualmente trôpego, encurvado; mas também decidido, cruza a rua, embora só, e também inspira ternura, mas dessa vez pela experiência, pela história desconhecida que carrega nos ombros. Só fragilidade e brandura. As cenas me emocionam, num piscar de olhos a vida floresce e murcha, nesse encanto, que sentimos, mas não enxergamos. É quase possível tocar a beleza de viver enquanto penso na delicadeza dessa linha, certa e misteriosa, do tempo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

aconchego

Na entrada de um shopping, a família entra testando os conhecimentos matemáticos da menina mais nova que teria entre oito a nove anos de idade:
Pai: Quanto é 6 x 9?
Mãe: .... (apreensiva)
Irmã mais velha: ela não sabe multiplicação, não disse?! Quanto é 6 x 9?? 6 x9?!
Menina: ... (com cara de que estava fazendo milhões de cálculos e nervosa)
Avô: também, com tanta pressão assim, ninguém consegue.

Ah que saudade da compreensão e da proteção que só os avós dão.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sim

Faz
Faz minhas noites
mais
leves
Faz meus dias
mais
breves -
intensos.

Faz meus momentos
mais
vivos
Faz meus risos
mais
ricos -
sinceros.

Faz meus instantes
mais
inteiros
Faz minhas horas
mais
agora -
eternas.

Leandro Wirz (tava na hora do poeta aparecer aqui e nos ensinar desejos...)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Salve!

Eu também fui saudar o mar na virada do ano e no primeiro dia de 2011, foi a primeira vez, e gostei não só pela simbologia desses momentos que tanto prezamos, mas porque no fundo elas realmente trazem e nos fazem sentir mais intensamente a passagem do tempo, os rituais, o valor de cada coisa, a importância de cada momento, diante da grandeza do mar, o nosso olhar é redimensionado para nos aproximar do verdadeiro sentido de quem somos e de onde estamos. É incrível ter consciência, ainda que não tão plena, desse mistério maravilhoso que é viver...

imagem: arquivo pessoal

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a dança das borboletas



imagens: arquivo pessoal

segundo registro

A viagem também se deu para o interior, aquela parte lá dentro; lá longe, que silencia mas se mostra, em imagens, recortes do olhar bem meu, bem eu. Quando perto de onde sempre estive, quando distante do espaço presente, onde habito meus sonhos, onde vivo. Não há palavras mesmo, coerentes, pra contar uma história dessas, a minha. É mais de sentir, de olhar, de pensar e querer o que está à distância de um passo, sempre. Querer mais do possível e do simples igualmente, mesmo quando não há. Fazer paciência e receber feliz a paisagem real, singela ou não, cada vez que se abrem portas e janelas de um novo dia.
imagem: a janela lá de casa- arquivo pessoal

Diário de bordo

Viagem à terrinha.
Ida: 26-12-10

Trilha sonora: Não olhe pra trás- Capital Inicial


"Como sempre estou/Mais do seu lado que você/Siga em frente em linha reta/E não procure o que perder
Se não faz sentido, discorde comigo/Não é nada demais, são águas passadas/Escolha uma estrada/E não olhe, não olhe prá trás"


Foto: Rodovia Belém Brasília, arquivo pessoal

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

origem

De volta à terrinha após dois anos, reencontrar as lembranças trazidas pelos sabores, cheiros, lugares, pessoas. Sempre é tempo de recordar a infância; esse tempo onde nos fazemos, onde tomamos a base de quem vamos ser. É hora de matar saudade, mas de reavaliar, de rever conceitos, de mudar valores e ressignificar as coisas, atitudes, acontecimentos. A cabeça anda assim cheia de nuances, de nostalgia e ao mesmo tempo pensando no presente, no significado etimológico mesmo, nesse algo que nos é dado sem merecimento e sem exigir algo em troca. Gosto de pensar que seja mesmo uma dádiva divina que a nós cabe aproveitar sabiamente. E cada um usa da sabedoria que tem pra valorizar cada minuto recebido, não cabe julgar. Cuidar do nosso próprio presente já é uma tarefa grande demais, mas vale a pena dedicar-se.
Feliz cada novo dia pra vocês.