terça-feira, 5 de abril de 2011

moradia

" (...) uma casa é infinita." Francisco Daniel*

A fala simples e quem sabe equivocadamente escolhida para expressar a indignação diante do fato de ver a própria casa ruir aos poucos, demonstra os deslimites da linguagem que mostra não apenas a objetividade da opinião, mas toda a emotividade que a fundamenta. Ao dizer da concepção de durabilidade de uma casa, o morador diz mais. Diz do significado poético e afetivo da palavra, diz além. Casa é para ele o lar, o lugar onde reside e residirá indefinidamente os seus, a família, as lembranças, as histórias, os afetos; essas coisas que se passam no lugar onde nascemos, crescemos e vivemos e não tem fim, não se encerram num imóvel, não se resumem a paredes, tetos e portas. É um mundo que se eterniza na mente e no coração de toda gente, que é a alma da toda casa. Essa moradia, infinita mesmo, dos nossos desejos, dos nossos sonhos de habitar a vida.


Eu compartilho desse significado ou talvez apenas o perceba erroneamente, mas carrego esse sentimento de infinitude, também.

*(morador de Trizidela do Vale -MA, sobre as casas entregues para as vitimas das enchentes no interior do estado do MA, e que já estavam apresentando risco aos moradores por causa das rachaduras. Assista aqui.)

Um comentário:

João C. Neto disse...

É impressionante como esse senhor, mesmo sem ter um alto grau de instrução, conseguiu expressar, ainda que meio sem intenção, a questão da identidade do ser humano. O local de habitação como parte da formação da individualidade do homem. Sua forma de pensar e agir que está intrinsecamente ligada a sua interação com o meio em que vive. A necessidade de um espaço que o situe no mundo e no tempo.

Parabéns por sua aguçada percepção. Para a maioria de nós essa fala deve ter passado sem causar reflexão ou entendida simplesmente como erro de um incauto no uso das palavras.