domingo, 4 de dezembro de 2011

Crônica da rua nove

Morar perto do bar da esquina e de parada de ônibus, tem suas vantagens, frequentemente há pessoas protagonizando situações inusitadas altas horas. De bêbados filosofando pra rua toda ouvir a brigas memoráveis de namorados, amantes, amigos*. É sempre interessante observar nosso comportamento. Humano, demasiado humano. Dessa vez deu-se o segundo caso.
Era quase meia noite, acordo ouvindo vozes alteradas, carro acelera duma vez, freia bruscamente. Ela ou ele diz: “me dê a chave”. Ele berra: “e não apareça mais! Fica ai, então!” Ela bate a porta do carro e brada: “pode deixar. Vá com Deus!” O carro novamente sai cantando pneu. Não resisto, levanto e vou à janela. Vejo-a. Caminha apressada, olhando o carro sumir ao longe. Caminha pisando firme, certamente com um pouco de receio, pois vindo do lado contrário, uma figura aparentemente masculina, fumando, aproxima-se (uma mulher sozinha, uma rua escura tarde da noite e um estranho aproximando, parece filme de suspense). Permaneci olhando, temi por ela, e me preparei pra soltar um grito e assustar o bandido, caso eu estivesse num roteiro de filme; mas era só minha imaginação fértil, e os dois cruzaram-se e seguiram seus caminhos indiferentes.
Continuei ali, até ela dobrar a esquina (não a do bar. Moro numa travessa). Dobrou a esquina, sumiu e me deixou pensando sobre passos firmes e a coragem que o orgulho dá, repentinamente, quando já não há nada que possa ser dito ou feito. E fiquei querendo, ser corajosa também. E seguir em frente, sem olhar pra trás, enfrentar os medos, dobrar esquinas, com uma dor, talvez; mas destemida, levando meu amor-próprio.

*(até hoje não houve nenhuma situação mais violenta que precisasse de intervenção policial, ou eu não acordei :)

2 comentários:

IsaBele disse...

Muito bom! Mas às vezes o orgulho mais atrapalha q ajuda, fazendo-nos perder a oportunidade de assumir erros e andar juntos.

Bjs.

Ana Aitak disse...

Tem toda razão, Isabele!