sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Predestinados

Porque adoro a intertextualidade poética, adoro as releituras, as diferentes versões que cada um tem das coisas, da vida (em alguns casos). Algumas vezes resisto postar algo que eu não tenha escrito, porque afinal aqui eu deveria dar minha própria versão sobre algumas coisas, mas eu também sou aquilo que me comove, que me emociona, aquilo que gosto. Quando nos identificamos com um texto, uma imagem é por que tem ali alguma coisa de que também somos feitos. Assim ao compartilhar esses recortes, esses guardados do coração, essas preferências de todo tipo com as quais me identifico, também estou revelando o que penso, o que sinto, o que aprecio, o que sou. (sem pretensões)

Poema de sete faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Com licença poética
Adélia Prado
"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."
Eu adorei a versão de Adélia, particularmente e sem significar preferência. Esses dois poetas foram mesmo predestinados à perfeição, se ela existir por aqui.

3 comentários:

_thiago disse...

Lindos poemas Ana.
Só conhecia o do Carlos,
adorei a versão também!

bjobjo

=]

Fernanda Alves disse...

Que lindo,nada mais encantador que os poemas de Drummond.=)
adorei o blog=)

rapha_letra disse...

nossa ana mandou muito nesse Drummond ai , nao conhecia,lindo
parabens pelo blogg ta bem legal.

bjs