quarta-feira, 27 de maio de 2009

ler e escrever vida

O dia a dia, a correria me dá sensação de que não estou acompanhando o tempo, não estou aproveitando o tempo, queria ler os muitos livros da lista dos mais vendidos, os clássicos, os modernos, ou os achados e fica essa sensação de perda...E ainda pior que essa é aquela sensação, aquela ansiedade de vida, de estar deixando ela passar, e não estar atenta, sentir que estou deixando de viver, como se isso fosse possível. Então eu pensei que hoje estive lendo a vida, estive a contemplá-la, observando-a, provando-a como o pão com manteiga e pingado . Estive vendo a poesia viva, crua, in loco, sem preparo. Estive dentro de uma história cheia de personagens interessantes, na literatura mais trivial e nem por isso menos especial.
No bêbado que falava bem alto, tentando afrontar os seis policiais que tomavam o café na mesma padaria que nós, contando da sua filha "baroa", suas filhas lindas e da sua mulher que toma remédio controlado e que ninguém mexa com ela ou vai se ver com ele; a liberdade, a angústia, a solidão íntima. Na criança que pergunta ao policial cadê seu tio, que usa aquela roupa igual a dele, tem um óculos aqui (aponta o alto da cabeça) e que abraça ela quando a vê; a ternura, a inocência, a beleza de ser gente. Na atendente que ao vê meus olhos se demorarem no café com leite que havia preparado pra si mesma, o oferece a mim, desapegada e sorridente; a gentileza, a sutileza, a leveza, a generosidade. E o dia estava apenas começando.
Mas tarde a indignação; a injustiça no adulto que agride um menino, a dissimulação nos sorrisos falsos. A alegria no riso de alguém querido. Os mistérios da própria alma, da própria dúvida e a expectativa de ir logo pra página seguinte.

3 comentários:

Kholdan disse...

Viver é realmente uma grande poesia. Acho que tenho que começar a observá-la assim como vc fez...

João disse...

Vc tem o percepção dos grandes escritores; ou melhor, vc tem a percepção que todos temos, mas que só alguns poucos sabem expressar. Esse texto me lembrou o estilo detalhista de Alusío Azevedo.

_Thiago disse...

Eu gosto dessa inspiração do cotidiano e dos seus textos tão bonitos. De que a vida é tanto e a gente sempre acha que é pouco. Foi o que disse um dia pra um amigo " eu tenho tudo, mas tá faltando tanta coisa".