terça-feira, 1 de setembro de 2009

tulipas e pipocas

estende o braço e verás que ao longe
o fogo se equilibra entre duas montanhas
a tua volta, as aves cantam

acordei e dei-me conta que voltei
a fazer coisas com significado
e voltei a perder-me
/ de mim

precisamente o que não tem significado
é o que tem sentido

sábado, 29 de agosto de 2009

inteireza

Para ser grande, sê inteiro:nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933

olha aí o que andei achando nos meus arquivos esquecidos no pc, as coisas que guardei ainda me agradam...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

pobre rima, pobre sina

Eu dizia:
Meu dia só clareava quando te via
E você sorria; só ria.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

semântica

"No mal- entendido da linguagem nos tornamos humanos e amamos. Na palavra uma amizade se dissolve, um amor acaba, a história muda, a ciência se sustenta. Esquecemos de zelar pela palavra, que é coisa frágil e firme, líquida e consistente, efêmera e eterna. Esquecemos que a palavra é a nossa maior marca do paradoxo do desejo. Damos respostas rápidas no cotidiano, estraçalhamos a escritura do outro, acreditamos na totalidade do signo linguístico, criamos certezas ao redor de algo que é pura evanescência. A palavra não dá conta de quem somos, e nada que é mediado por ela é completo- é essa nossa angústia.

Precisamos reaprender a escutar o outro "além- palavra", escutar o silêncio da diferença. Nada mais fatal para o amor que a resposta rápida. Nada mais mortal para uma amizade que o julgamento precoce."

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Inexorável

Sim.
Todos os poemas
são de amor.
Pela rima,
pelo ritmo,
pelo brilho
ou por alguém,
alguma coisa
que passava
na hora
em que a vida
virava palavra.
Alice Ruiz

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

amor tecer*
Eu entendi, eu me entendi. Realmente não posso fazer com que me olhem com meus olhos, que me ouçam com meus ouvidos e que me falem com meus desejos, pensamentos.
Eu sempre soube que é difícil se colocarem no meu lugar, porque eu já estou nele e não cabe outro, a não ser como generosidade e não como razão. No meu lugar não cabe mais matéria, mais julgamento, só cabe sentimentos que não tenham peso.
Tenho que me esforçar pra carregar o que já cansa o que já incomoda. Talvez por isso não consiga aliviar o outro um pouco, ajudar com sua carga. Eu não me orgulho desse egoísmo, ao contrário. Também queria ser para alguém uma delicadeza, um alívio, um agrado, poesia.
E é por isso que passo em instantes, do sentimento de despeito à compreensão e percebo que o outro sou eu e vice-versa. Me comovo ao perceber minhas fraquezas e defeitos em alguém que não sou eu. E sei que ninguém vai amar meu desamor, embora eu espere.
Mas perceber tudo isso não traz o que ainda falta; só me responsabiliza, transformar a estima por mim mesma em amor para alguém que "não eu".

*suavizar
imagem: fragmentos

terça-feira, 11 de agosto de 2009

fórmula

SEGUNDO CONSTA

O mundo acabando,
podem ficar tranquilos.
Acaba voltando
tudo aquilo.

Reconstruam tudo
segundo a planta dos meus versos.
Vento, eu disse como.
Nuvem, eu disse quando.
Sol, casa, rua,
reinos, ruínas, anos,
disse como éramos.

Amor, eu disse como.
E como era mesmo?

Paulo Leminski in: Distraídos Venceremos . Brasiliense. 2ª Ed. Curitiba 1987.