Normalmente quando me vem à mente um dos textos, microtextos que publico aqui, estou em trânsito. Hoje aconteceu algo engraçado. Já do ponto do ônibus embarquei numa viagem ao mundo imaginário. Normalmente preciso pegar dois bus para chegar ao trabalho; então estava eu no primeiro bus, distraída “avuando” na cadeira alta do fundão, escolhendo palavras, fazendo combinações na mente quando de repente voltei a mim num sobressalto, o ônibus parou por acaso na parada que eu devia descer e não tinha visto. Saí num susto do mundo da lua, e ainda atarantada desci. Eu que me encontro vez em quando na palavra escrita, dessa vez ia me perdendo literalmente, susto.
Foi mesmo atípico, normalmente penso em algo pra escrever e demoro alguns dias pra ter outra “inspiração”, a média é de uma a cada três ou mais dias. Hoje foram três pequenas narrativas que me vieram à mente, tudo que via me dava vontade de transformar em palavras, em história. Foi o senhor bonito quase correndo, de bengala na mão, tentando alcançar o ônibus que já saía, e o vento trouxe uma sacola plástica que se enroscou em suas pernas, e fez ele me ensinar que na velhice, agilidade e equilíbrio não se entendem. Foi o casalzinho adolescente dentro do ônibus que se abraçava entre brincadeiras deixando-nos em dúvida se era amizade ou amor também.
Mas por causa dessa rica experiência diária de usar o transporte público para ir trabalhar, no momento não pude imediatamente fazer isso, estava no busão lotado, e usando as duas mãos para tentar me equilibrar no corredor, já que não tive sorte de encontrar uma cadeira vazia; senão teria procurado uma caneta e papel na bolsa pra rabiscar, anotar, mesmo que obviamente não encontrasse, pois se eu encontrar uma caneta dentro da minha bolsa quando precisar, toda a lógica do mundo se inverteu.
Mas fiquei só na vontade de fazer como os escritores fazem quando lhes vêm a vontade, o desejo e aproveitam o que estiver à mão, um guardanapo, um saco de pão, um espaço onde lhe seja permitido gravar aquele recorte de vida que cintilou a realidade, aquele tantinho de poesia. E é isso que quero quando faço meus escritos, meus rabiscos; é guardar na memória, é registrar uma imagem, sensação, pensamento que naquele momento tomou conta de todos os meus sentidos, me ofuscou momentaneamente e me fez querer deixar disponível pra olhar de novo, sentir de novo quando eu quiser ou apenas lembrar. Essa ansiedade de escrita também me fez lembrar a mãe do poeta
Fabrício Carpinejar, poetisa Maria Carpi (se não me engano) que conta o filho, usava até o próprio avental como suporte para seus versos, essas coisas formam cenas lindas na minha cabeça e me encantam. Olha que lindo:
"Queremos o desejo de estar sendo. Quando pequeno, meu pai me levava para a sinfonia das árvores em frente de casa, em noites cheias de vento. Ele levantava a cabeça para ouvir melhor. Ele levantava a cabeça ao escrever, não baixava como o normal. Enquanto ele anotava, eu ficava intrigado: será que meu pai está plagiando as árvores? Minha mãe não era diferente. Um dia eu a vi escrevendo no avental. Não achava folhas e assinou um longo poema no avental. Sabe o que significa a um menino chegando com bola debaixo do braço, fedido de mato, enxergar a mãe redigindo em um pano? Tudo. A escrita é linha de costura. Mas uma costura por dentro. Ninguém enxerga os pontos." in: http://www.carpinejar.blogger.com.br/2004_04_01_archive.html
Então é isso, queria dizer dessa sensação de cumplicidade com a vida, dessa felicidade que transborda das mínimas coisas, dos mínimos gestos, das delicadezas quase imperceptíveis, ando respirando uma felicidade tão vívida que me espanto, porque não está ligada a nada novo, a nenhum fato específico que não seja minha existência inteira, essa dádiva. E mesmo que me entristeçam às vezes, e mesmo que eu aborreça alguém às vezes; ainda assim o que me habita é incrivelmente melhor e mais fascinante; perdoa, supera.
Desculpe a incoerência, a falta de técnica. Mas prefiro o conteúdo à forma (desculpa esfarrapada de quem não sabe) e não quero deixar passar a oportunidade.